Era um "português" da Galiza mais amigo de Portugal do que muitos portugueses que por aí andam… e conhecia-o desde 1959 quando, com o irmão Valentim, ambos geriam, com o maior zelo e eficiência, o melhor Restaurante de Setúbal: o Restaurante do Naval, ali no 1º andar do edifício da Avenida Todi que é agora do Montepio.
Passava o Verão de 1976... e os tempos estavam difíceis.
Um amigo nosso, em férias em Las Palmas, enviou-me um postal ilustrado endereçado para o Clube Setubalense, talvez por não se lembrar do meu endereço completo.
Aconteceu que o Carteiro, fazendo alguma confusão, acabou por deixar o meu postal ilustrado no Restaurante do Clube Naval Setubalense, em vez de o deixar no outro lado da Avenida, no Clube Setubalense.
Uns dias mais tarde, o postal vem parar às minhas mãos, dentro de um envelope que me era dirigido para o Clube Setubalense. O remetente era o "Zé da Banca", um nome que eu conhecia bem como autor dos "Perfis" que semanalmente saíam sob a forma de Soneto, no extinto jornal "A Voz de Palmela". E vinha acompanhado por uma carta em forma de verso...
Tinha de ser!... E tinha piada!...
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Mas na altura tive receio de dar publicidade àquela carta...
Os tempos eram então muito difíceis! E tive medo...
Tive medo, mas não por mim... Tive medo pelo sr.Laureano Rocha!
Ele não merecia que pudessem vir a apoquentá-lo... pelo humor que então demonstrou!
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Este é o postal ilustrado que um Amigo me enviou

Las Palmas - Agosto de 1976
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O texto do postal ilustrado era o seguinte:
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Amigo Matos
Aqui vai a figura que muito bom político da nossa terra faz.
Espero que os “galifões” não comam tudo, para que a nossa terra não fique árida como a que se vê na gravura.
Um abraço para todos os nossos amigos
F,
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Os versos que acompanhavam o postal, por certo feitos de improviso, são os que reproduzo a seguir:
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Doutor, desculpe o abuso
Mas veio aqui p’ró Naval
Por equívoco, o postal
Que na minha vai incluso.
É que, por acaso, li
O texto que vinha escrito
E eu só no fim vi que o dito
Era destinado a si!
Mas olhe, Doutor, gostei,
Porque o texto, na verdade,
É um hino à sociedade…
Dos “defensores” da grei…
A figura é subtil…
Camelos… só dois encerra
E há milhares nesta terra
Criados… no mês de Abril!…
E tão maus os “galifões”…
Tão cheios de hipocrisia
Que vivem… na porcaria
Duma corja de ladrões!...
Se o “Comba Dão”, esse santo…
Pudesse voltar e… ver,
Eu não sei, mas estou em crer,
Morria logo de espanto!
Pobre país que a loucura
Se aproxima tão veloz
Dum fim…que p’ra todos nós
Já é mal que não tem cura!...
Doutor, desculpe o abuso
Mas veio aqui p’ró Naval
Por equívoco, o postal
Que na minha vai incluso.
É que, por acaso, li
O texto que vinha escrito
E eu só no fim vi que o dito
Era destinado a si!
Mas olhe, Doutor, gostei,
Porque o texto, na verdade,
É um hino à sociedade…
Dos “defensores” da grei…
A figura é subtil…
Camelos… só dois encerra
E há milhares nesta terra
Criados… no mês de Abril!…
E tão maus os “galifões”…
Tão cheios de hipocrisia
Que vivem… na porcaria
Duma corja de ladrões!...
Se o “Comba Dão”, esse santo…
Pudesse voltar e… ver,
Eu não sei, mas estou em crer,
Morria logo de espanto!
Pobre país que a loucura
Se aproxima tão veloz
Dum fim…que p’ra todos nós
Já é mal que não tem cura!...
Já não vejo salvação
Nem vida neste jardim…
--Os “pintasilgos” p’ra mim,
São aves de… arribação!...
Mas, Doutor, tenhamos fé…
Desculpe-me a ousadia.
…é que isto de poesia
É, pois, o fraco do “Zé”!...
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Eu sei que o "Zé da Banca" está sorrindo lá em cima...a recordar-se destes seus versos feitos numa época em que o desânimo ocupava a maioria dos portugueses que sempre souberam trabalhar!...
2 comentários:
Os versos são giríssimos e de uma grande actualidade. Por uma das minhas debilidades tb ser a poesia, não tenho saudades do «Comba Dão», embora reconheça que estamos a viver num deserto governado por dromedários.
Os versos são giríssimos e de uma grande actualidade. Por uma das minhas debilidades também ser a poesia não tenho saudades do «Comba Dão», embora reconheça que estamos a viver num deserto governado por dromedários.
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